Roman Polanski: É Possível Separar A Obra do Artista?


Roman Polanski é um diretor, produtor, roteirista e ator nascido na França. Apesar da nacionalidade francesa, Polanski morou por muitos anos e consagrou sua carreira nos Estados Unidos. O diretor é mundialmente reconhecido por obras que marcaram o cinema e servem de referência até os dias de hoje, como “O Pianista (2002)”, “Chinatown (1974) e “O Bebê de Rosemary (1968)”. Roman também ficou conhecido por ser o viúvo de Sharon Taton, atriz americana que foi assassinada pela gangue do ínfimo serial killer Charles Manson em 1969. Quando Sharon foi morta, ela estava grávida de 8 meses do seu primeiro filho com Roman Polanski. 

“O Bebê de Rosemary” é uma das grandes obras do diretor e influenciou grandes filmes como “O Exorcista”. Ainda hoje, esse longa de Polanski é reconhecida como marco do cinema de horror. Como uma infeliz coincidência com o assassinato de Sharon Tate pela gangue satânica de Charles Manson, “O Bebê de Rosemary” conta a história de uma mulher que fica grávida graças à um grupo demoníaco e acaba dando luz ao anticristo. 

Por um lado, as obras de Polanski tiveram grande importância no meio artístico e sua influência é irrefutável. Por outro lado, a vida pessoal do diretor levanta polêmicas e controvérsias. Em 1977, Roman Polanski confessou ter estuprado uma menina de 13 anos e foi condenado à 50 anos de prisão nos Estados Unidos. Mesmo com a confissão e a condenação, o diretor fugiu do país e se abrigou na França, que tinha um acordo para negar extraditar seus cidadãos para a América do Norte.

Até hoje, Roman é considerado fugitivo da lei e nunca pagou por seus crimes. Mais tarde, despontaram novas denúncias de mulheres afirmando terem sido sexualmente agredidas por Polanski em suas infâncias e adolescência. 

Recentemente, Polanski foi premiado em uma das maiores cerimônias francesas de cinema, o César. Ao saber da premiação do diretor, muitas mulheres do meio artístico francês - atrizes, diretoras, produtoras, entre outras - deixaram o espetáculo imediatamente. Além disso, houveram protestos contra as indicações de Polanski, que por conta das represálias nem sequer apareceu para receber o prêmio. Semanas antes da cerimônia do Prêmio César, a diretoria da premiação se demitiu coletivamente como um ato de protesto contra as indicações de Roman e a falta de igualdade de gênero.

Com tantas questões acerca das polêmicas envolvidas com o nome de Roman Polanski, é preciso se perguntar: é possível separar a obra do artista? É inegável e irreversível o legado de Polanski no cinema de horror. Porém, também é inegável a monstruosidade de seus atos e a revolta por sua constante impunidade. 

Não estou aqui para dar nenhum veredito. Cultura é algo extremamente pessoal e flexível, por isso não pode ser imposta o total “cancelamento”. As referências que nos moldam são construídas ao longo da vida e influencia a maneira que lidamos e vemos alguns tipos de arte. Por vezes, quando já construído esse processo, é difícil desvincular e romper as relações entre obra e artista.

Para ilustrar esse dilema, foi feito um estudo psicológico com estudantes ingleses em 2010. Foram apresentados aos estudantes duas telas sem que fossem revelados as artistas por trás delas. Uma tela era de autoria de Adolf Hitler e a outra era do ex-Beatle, John Lennon. Sem saber quem eram os artistas donos da obra, grande parte dos estudantes elogiaram a tela de Hitler, falando sobre a bela paisagem e os bonitos traços arquitetônicos. Já sobre a tela de Lennon, os alunos julgaram inferior e com traços infantis.

Uma semana depois, os mesmos alunos foram apresentados as mesmas telas e revelados os artistas por trás delas. Dessa vez, o grupo não deu tanto mérito à pintura de Hitler e encontrou motivos para elogiar a obra de Lennon. O exercício comprovou que a personalidade por trás das artes pode sim influenciar como o espectador consome o conteúdo.

Tendo esse experimento em vista, podemos perceber que a personalidade e vida pessoal de um artista nunca será totalmente desvinculada de sua arte. Grande parte do seu conteúdo é reflexo de seus ideais e crenças, o que o artista representa na arte também representa o que ele é. 

Dito isso, ainda é impossível negar a influência e importância de Roman Polanski no cinema de horror. Devemos, porém, continuar enaltecendo suas obras? Devemos continuar agindo com impunidade por causa de sua influência? Devemos relevar crimes monstruosos por conta de obras revolucionárias? 

Protestos conta Polanski durante a premiação francesa César

A resposta para essa pergunta é individual e mutável dependendo das crenças de cada um. Porém, é sempre importante manter o debate sobre a linha tênue que separa a obra do artista para que possamos ter consciência social do que consumimos. As obras não são auto criadas, existem pessoas e crenças por trás de todas elas. Resta a cada um escolher o caminho que se quer levar e o mais difícil de tudo: se comprometer à sua escolha.

1 Comentários

  1. Parabéns filha, ta lindo e interessante, seu site, sucesso!

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