O Que É Pós-Terror: Inovação ou Mito?


Em 2017, um novo termo surgiu no gênero do terror. Cunhado por Steve Rose, um crítico de cinema do The Guardian, o termo "pós-terror" foi criado para exemplificar a sensibilidade do filme "Ao Cair da Noite (2017)" e como ele se destacava entre as demais obras do gênero.

"Ao Cair da Noite" (2017)

A "criação" de Steve deu origem à uma discussão que pendura até hoje no gênero e abriu os olhos do público geral à um novo movimento. Filmes como "Corra! (2017)" foi indicado à diversos Oscar's, levando a estatueta de "Melhor Roteiro Original". "The Lighthouse (2019)", de Robert Eggers, também foi alvo de indicações à diversos prêmios e chegou a ser o vencedor no prêmio de críticos em Cannes. Outras obras como "Hereditário (2019)", "Nós (2019)", "O Babadook (2014)" e "A Bruxa (2015)", por exemplo, foram bem recebidas por críticos e pelo público, despertando a atenção geral por supostamente trazerem novas propostas e inovação ao gênero de horror.

Muito do que chama atenção nesses filmes são os fatos deles não se inclinarem aos famosos jumpscares, aos excessos de cenas gráficas e sangrentas ou quaisquer outros clichês associados ao gênero. Chamados por muitos de "terror sério", o pós-terror se debruça sobre roteiros bem construídos e temas complexos como maternidade (O Babadook), relacionamentos abusivos (Midsommar), racismo (Corra! e Nós), religião (A Bruxa), entre outros.

Apesar do termo ter sido criado e fazer sentido para alguns, muitos se perguntam se o pós-terror pode ser considerado um subgênero do terror e se de fato ele é tão inovador assim. Para continuar entendendo o significado do termo e as polêmicas que o envolvem, precisamos estratificar os subgêneros e entender o que é terror como um todo.

"Pós-terror" e os subgêneros

Gore

Jogos Mortais (2004)


O subgênero do "Gore" embarca os filmes que usam da violência física para causar medo ou horror. Violência visual, muito sangue, canibalismo e desmembramentos são alguns elementos parte desse subgênero que é composto por filmes como Jogos Mortais, Uma Noite de Crime e Centopeia Humana.

Slasher (Assassinos)

O subgênero "Slasher" também usa muitas vezes de violência visual e baldes de sangue, porém com um elemento essencial a mais: assassinos. Filmes de perseguição que apresentam personagens aterrorizantes e complexos como Hallowen, Pânico e Sexta-Feira 13 fazem parte desse subgênero.

Monstros

Entre os séculos 20 à 60, o subgênero de "monstros" era amplamente popular e deu origem à personagens que perpetuam até hoje, como Frankenstein, Drácula, O Homem-Invisivel, entre outros.

Sobrenatural

Um dos subgêneros mais populares da atualidade, o "sobrenatural" embarca muitos temas envolvidos com possessão demoníaca, bruxaria, fantasmas, entre outros. Responsável por grande parte dos blockbusters de terror da atualidade, os filmes sobrenaturais se popularizaram e geraram bilheterias milionárias. Obras como Invocação do Mal, O Exorcista, O Exorcismo de Emily Rose, entre outros, são parte desse gênero e utilizam de elementos que são geralmente associados ao terror: muito sangue e jumpscare.

Psicológico

Já o subgênero "psicológico" diz respeito à aqueles filmes de terror que perturbam a mente e mexem com as nossas concepções da realidade. Conhecidos por causar ansiedade, calafrios e desconforto, muitas das obras de subgênero psicológico não utilizam de violência gráfica, sangue ou jumpscares para causar medo aos espectadores. Ao em vez disso, os filmes de terror psicológico confiam em enredos complexos e bem construídos, que embarcam histórias próximas da realidade e temas profundos.

Se analisarmos todas as obras consideradas como "pós-terror", podemos perceber que elas se encaixam perfeitamente na categoria de terror psicológico. Filmes como Babadook, Corra!, Hereditário, entre outros, são muito mais pertencentes à esse subgênero do que ao pós-terror.

Mito ou Inovação?

Apesar de ter citados filmes relativamente recentes como exemplos de terror psicológico, esse gênero não é nada atual.

O Bebê de Rosemary (1968), por exemplo, trata de questões religiosas e sociais sem nunca mostrar a face do mal. Suspiria (1977), O Iluminado (1980) e Psicose (1960), são outros exemplos de filmes que marcam a história do terror se atrelando ao subgênero psicológico, e que hoje em dia poderiam ser facilmente considerados como "pós-terror".

Por que, então, mesmo com esse gênero existindo a tempos, está sendo considerado uma inovação agora?

Como todo gênero e indústria, o cinema de terror também passa por saturações. O que está acontecendo agora é um reflexo de obras que estouraram todos os seus recursos ao ponto de transformá-los em clichês. A onda de filmes de terror sobrenaturais que carregam em suas narrativas histórias de possessão e excesso de jumpscares fizeram com que o gênero se saturasse. Dessa forma, cada obra que tenha um roteiro mais elaborado e que cause medo sem se apoiar em sustos, causa excitação e comoção. O público, apresentado à algo que não está acostumado, é comumente levado à acreditar que o que lhe está sendo apresentado é inovador.

O prefixo "pós" que o pós-terror contém carrega um significado de algo além do nosso tempo, que sai do tradicional. O pós-terror, porém, não é "pós" em nada. Ele é apenas um outro termo criado para algo que já existe na indústria a muito tempo.

A Polêmica do Pós-Terror

A criação do termo gerou muita discussão e polêmica no cinema de terror. Isso porque o pós-terror gerou uma onda segregadora no meio e dividiu os espectadores em dois grupos: aqueles que acreditam que o pós-terror não é terror e os que acreditam que o pós-terror é um terror erudito.

Pós-Terror Não É Terror

Ao enquadrar filmes como Corra!, Hereditário, A Bruxa, Corrente do Mal, entre outros, no pós-terror muitos desconsideram as obras como parte do gênero de terror. Por possuírem roteiros bem construídos, enredos complexos e temáticas relevantes, esses filmes são constantemente tidos como suspenses, dramas ou qualquer outro gênero que não seja terror.

Isso se dá porque o terror é considerado por muitos como um gênero caricato, simplista e vazio de conteúdo. Então, ao se depararem com filmes de terror elaborados e conteudistas, o público geral tende a desassocia-los do horror.

"O Meu Terror É Melhor Que O Seu"

Já o outro grupo reconhece filmes, como os citados acima, como de terror. Porém, por serem de "pós-terror" e embarcarem questões mais complexas sem utilizarem de jumpscares ou outros "clichês", muitos consideram essas obras superiores às de outras categorias, como o sobrenatural, gore ou slasher.

É preciso, porém, ter cautela com esse tipo de pensamento tendencioso pois ele desqualifica todo o resto do gênero. Precisamos reconhecer que, da mesma forma que esses filmes trazem diferentes abordagens para o meio, os outros subgêneros também trazem, por mais que sejam apoiados em recursos conhecidos (sangue, possessões, sustos, etc). É inegável, por exemplo, a importância da franquia Inovação do Mal para o cinema como um todo, além de ser evidente a nova visão que obras como A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal trouxeram para o meio.

O gênero de terror é um espaço democrático e inclusivo que embarca todo tipo de história, desde às menos convencionais até às demoníacas. Dizer que filmes de terror premiados, complexos e não-tradicionais são "pós" os distancia do seu gênero de origem, quase como que os classificarem como terror fosse um insulto.

No fim das contas, o pós-terror foi necessário para incitar discussões mas não deve ser tomado como um gênero inovador ou revolucionário. O que o pós-terror propõe já está na indústria a muito tempo mas só agora está ganhando a devida atenção. O que precisamos fazer é valorizar o cinema de terror como um espaço de obras relevantes e de qualidade, que como um todo merece destaque e reconhecimento.


2 Comentários

  1. Bem, Babadook não creio que faça parte da categoria dos citados como psicológicos. Mas adorei demais o seu texto, essa nova onda de diretores com esses ditos filmes diferenciados, nada mais é que o ciclo natural do gênero, pois há um boom dos slashers, dos sobrenaturais, e assim por diante. O terror psicológico também cai no limbo de repetitivos, se for explorado demais. Parabéns, adorei a leitura!

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  2. Marina Araújo por Spooky Co.22 de abril de 2020 05:43

    Renato, obrigada por sua leitura e feedback! Sempre importante deixar a discussão aquecida!

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